Tributo a Vítor Oliveira




Pela profundidade que merece e lhe é devida, decidi atrasar uns dias o meu tributo a Vítor Oliveira e, assim, escrevê-lo sob a forma de artigo.

Vítor Oliveira, alguém que passou, desde o primeiro momento em que privámos, a ser mais que um conhecido, um Amigo, Senhor e Referência.



Primeiro contacto


Através do Mister Viterbo, cheguei ao contacto de Vítor Oliveira, em finais de Fevereiro de 2018, numa digressão que realizei a fim de conhecer pessoalmente (enquanto cá estavam ainda), alguns dos históricos, clássicos e carismáticos Treinadores que pertenceram a uma geração de um futebol hoje longínquo. E com esse critério, Vítor Oliveira, foi o primeiro.



Portimão, 26 de Fevereiro


Ao acolher o meu pedido, viajei para Portimão e aí fiquei para uma semana de observação no Portimonense.

Dessa semana guardo:


No dia anterior ao início do estágio, perguntei-lhe se era necessário falar ou pedir autorização a algum director tendo-me dito simplesmente "não, eu trato disso". Ao chegar, convidou-me a estar com a equipa técnica no seu gabinete antes e após o treino. No início do primeiro treino, apresentou-me ao grupo de trabalho contextualizando a minha presença.


Da semana de treinos e no plano operacional destacaria aspectos como simplicidade do treino, espírito competitivo (titulares a não titulares), exigência e um bom ambiente.


No final da semana, pedi-lhe um momento para falarmos do estágio. Vítor Oliveira não só acedeu, como me convidou para almoçar. No almoço, no restaurante Tapa Latina, fiquei a conhecer alguns princípios da forma do Treinador Vítor Oliveira estar no Futebol.


Esta introdução definiu, pela simplicidade, pelo trato e cortesia e pela sensibilidade nas relações, desde logo, quem era Vítor Oliveira.




"Pensa pela tua cabeça".


Nesse almoço, mais confidencial, falámos um pouco sobre vários temas desde o estado do futebol, de metodologias, à carreira...

Da conversa de duas horas, houve uma frase que me repetiu mais que uma vez: "pensar sempre pela nossa cabeça". Outra ideia que reforçou teve que ver com a simplicidade que o treino e metodologia deveriam, do seu ponto de vista, respeitar.


Entre outras coisas que falámos, estas ideias vieram mais tarde, da segunda vez que conversei pessoalmente com ele, a fazer mais sentido ainda, como evidenciarei a seguir.


Despedimo-nos, deixando-me à vontade para lhe ligar se fosse preciso ou se quisesse aparecer de novo.




Novas dúvidas


Desde aí mantive algum contacto com o Mister, fui ver alguns jogos, um deles o da subida do Paços em 18/19. Paralelamente, decorrente da minha prática, foram-me resultando novas questões e problemas. Passarmos pelas experiências, e compararmos o que pensamos ou já ouvimos, com o que sentimos na realidade, reacende a necessidade de procurar novas "respostas". E decorrente dessas novas dúvidas, ao fim de um ano e meio, senti necessidade de procurar novamente Vítor Oliveira.




Barcelos, 6 de Junho de 2020


Mais uma vez, apesar das dificuldades em período Covid, recebeu-me com a mesma disponibilidade, tempo e atenção.

Depois de lhe explicar os motivos que acima referi, lancei-lhe uma questão propositadamente abrangente: "Que princípios para o sucesso de um Treinador?"

Daí a conversa fluiu para pontos que tornaram para mim as coisas mais claras.




"Pontas soltas"


Reconhecendo que cada Treinador é diferente, usou como metáfora as "pontas soltas", referindo haver quem que se dê bem com a lógica de deixar pontas soltas, porque as coisas ficam ambíguas e assim ser fácil não haver responsabilização. Mas cingindo-se ao caso dele referiu optar por não deixar pontas soltas: Clareza na conduta, no atribuir funções, o que se espera de cada um. "E quando surgir um problema, resolvê-lo imediatamente. Se deixarmos arrastar, mais tarde esse problema voltar-se-á contra nós...".




A história com Monge da Silva


Confidenciou-me uma história referente, creio, ao seu primeiro ano como Treinador. Ao ser convidado, deixou como uma condição ter o Prof Monge da Silva como seu adjunto -

"uma das pessoas mais competentes que havia na altura no futebol português" (Vítor Oliveira, em entrevista à Tribuna Expresso em Novembro, 2020). E assim foi.

E continuou a história dizendo que antes de iniciar os treinos fora a Espanha comprar livros sobre treino e com muitos exercícios, aplicando-os nos treino numa lógica de variabilidade...


Contudo, não obstante ter constatado que os jogadores estavam a gostar de ter exercícios diferentes todos os dias, certo dia o Prof Monge da Silva pediu para falar com ele: "Disse-me, «- Mister, creio que desta forma, os jogadores gostam, mas não se vão adaptar. Creio ser mais produtivo, encontrarmos os nossos exercícios, não precisam ser muitos, para os jogadores se adaptarem no decorrer do tempo e, dentro dessa lógica, ir introduzindo algumas variantes» e, depois de reflectir reconheci que talvez tivesse razão e passei desde aí a usar um pequeno grupo de exercícios, muitos deles -os do Monge da Silva - que ainda utilizo hoje."

O Prof Monge da Silva foi a primeira pessoa a sistematizar a teoria e metodologia do treino, e alguém que sabia, pelo estudo e principalmente pelo que concluiu no terreno, como atingir a adaptabilidade necessária para uma equipa render. Vítor Oliveira, porque humilde e inteligente, após ouvir e reflectir, seguiu o conselho de Monge da Silva.




Futebol e Simplicidade


Decorrente desta história, a"simplicidade" que me referiu mais que uma vez aquando da primeira conversa fez agora ainda mais sentido. Vítor Oliveira, além dos aspectos de Liderança que o distinguiram, percebeu também factores decisivos do treino como a problemática da adaptabilidade ou do criar dinamismo, como aspectos emergentes do simples, dos princípios e... do jogo (!).


Percebi também que a tudo isto concorriam a capacidade de análise e de decisão/escolha perante opções que um treinador tem de tomar, seja a idealização do Modelo de Jogo, seja a identificação/"definição" do onze base como me confidenciou após o encontro em Barcelos no trajecto de regresso ao Porto: "ter um onze base"- é bom quando os jogadores têm ideia que vão jogar".

Outras ideias guardarei para mim.




O Futebol como parte integrante da Vida


Estive com Vítor Oliveira pela última vez em Matosinhos no restaurante Teresa, encontrámo-nos casualmente. O Mister almoçava na companhia de três amigos. Um belo peixe grelhado acompanhado com vinho branco, ao contrário do tinto que bebemos no nosso primeiro almoço no Inverno de 2018 em Portimão.

Tenho com isto a evidenciar em primeiro lugar a PESSOA que, tendo sido um Campeão, o foi através de uma forma de viver onde estavam as Pessoas e o valor do tão necessário tempo fora do futebol.


"Não trabalho assim tanto, damos o treino de manhã, de tarde planeio e analiso o que há para planear analisar e depois tenho a minha vida."


O necessário tempo que lhe deu certamente força e energia para se entregar com toda a paixão pelo "trabalho" - ser Treinador- cujos motivos e propósitos sempre foram claros: Ganhar.




Ao vivo e a cores


Tenho com este relato a evidenciar, desde a recepção em Portimão à última vez que o vi as características de Vítor Oliveira, implícitas neste texto. Personalidade, frontalidade, coragem, humanismo, cordialidade, humildade, capacidade, alguém com ideias bem arrumadas, inteligente...

Alguém com valores bem definidos e que gerou respeito e consensualidade entre os que o conheceram e com ele privaram.

Em suma livre e independente.




Causalidade


Tenho vindo apensar muito sobre a causalidade entre o que observei e aquilo que me disse, com o que foram as Equipas de Vítor Oliveira: equipas que seguiam o treinador, equipas que tinham dinamismo, equipas que jogavam para ganhar, equipas que reagiam às adversidades mantendo o equilíbrio/consistência nos momentos bons e nos momentos maus.

E uma outra, equipas onde tinha peso e exigência na escolha do plantel.


Talvez tenha sido essa independência que simultaneamente o afastou dos "grandes" mas o tornou a ele, ENORME.


Por último não posso deixar de referir que são os Grandes, os verdadeiros Competentes que, na sua Humildade, ajudam os novatos. Porque não sentem insegurança nem qualquer receio, ao contrário dos que fogem.


Que esse legado fique para o Futebol, para a CLASSE DE TREINADORES e para vida.


O legado que deixou é enorme e fotografia é, por isso, a cores, pois ficará sempre.


Obrigado Mister.













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