A Agressividade como base (?) da Qualidade de Jogo. A Roma de Mourinho como outsider?

Atualizado: 13 de ago.



Por Agressividade entendo uma Atitude/Intenção de ter iniciativa sobre o jogo procurando condicionar o adversário (com e sem bola). Uma Cultura de Risco.

Uma Atitude/Intenção voltada para a baliza adversária, de forçar o jogo em progressão, de tirar iniciativa ao adversário (pressionando e retirando espaço/tempo).

Por Agressividade refiro-me a algo que tem um certo "Estado d'Alma" também, "um por todos, todos por um", à emotividade (coração) com que se está envolvido no jogo imbuído do querer ganhar, à ligação sentimental com uma Ideia de Jogo. Um Todo -algo que se expressa em evidente determinação, antecipação e Intensidade (contextualizada).


Abordo este tema em paralelo com uma reflexão que me suscitou recentemente a Roma de Mourinho que vi jogar ao vivo durante o estágio da equipa de pré-época no Algarve.

Ao mesmo tempo, precavendo-me de qualquer risco de diagnóstico, farei esta abordagem de um modo não prognóstico mas de certa forma "especulativo", isto é, referir-me-ei apenas a probabilidades. Há aspectos que me deixam dúvidas quanto à consistência do objecto sobre o qual especulo: as boas probabilidades da Roma em ser o outsider da Serie A (por no seu jogo observar esse "Estado D'alma").

Estágio no Algarve, jogos vs. Sunderland e vs. Portimonense.


Os jogos que observei nessa semana, primeiro contra Sunderland, terça 12 de Julho, e Portimonense, dia 16 de Julho, proporcionaram padrões de adversidade diferentes, mas dos mesmos reforcei a convicção acerca desta problemática.


A diferença de (uma verdadeira) agressividade

"Nele habitam ao mesmo tempo uma guerra/agitação e também uma confortante paz"
Documentário da RTP sobre Júlio Pomar

De contextualizar apenas que, como ponto de partida para a observação dos jogos, o olhar para a Agressividade de que falo, já era previa e subconscientemente, meu objecto de reflexão/análise. A importância que lhe tenho vindo a atribuir já há algum tempo, foi fruto da minha prática, de erros que cometi, sobre os quais reflecti e onde concluí da necessidade da sua não negligência, enquanto base, para a qualidade da Dinâmica. Por outras palavras, para o jogar bem.


Vs. Sunderland


No primeiro jogo, aparentemente, poder-se-ia atribuir, numa análise superficial, para quem observasse os primeiros minutos, que a Agressividade pendia mais para o lado dos ingleses, dado o ímpeto (acelerado) com que abordaram o jogo e cada lance, com entradas por vezes exageradas, como a reacção de Mourinho a determinada altura, protestando, atestou. Algo que possa ser confundido com Agressividade pode vir camuflada de um "grito", do "coração" e de um padrão de correria. Mas não é essa a Agressividade a que me refiro.


Na continuidade do jogo, a Roma, apresentando serenidade, aparentando jogar lento e quanto baste (aparentemente de forma pouco agressiva), facto agravado pelo calor de um jogo às 11 da manhã no Algarve, foi assentando e controlando os ritmos. E adormecendo um pouco o jogo, nos momentos certos, acelerou e evidenciou a sua diferença de Agressividade, ganhando limpo 2-0, e criando oportunidades claras e bem construídas.

Uma conjuntura organizadora que agrega a adaptação (nomeadamente a atlética)


A Agressividade é, portanto, contextualizada (Inteligente), assenta num contexto Organizador, o Colectivo, da agregação ao Modelo de uma adaptação multi-dimensional, da qual o lado "atlético" é parte integrante. Deste ponto de vista - e socorro-me na dimensão atlética, referindo-me a ela como parte integrante, por constatar que muitas vezes o conceito de Agressividade se confunde como unicamente ligado a uma ou às vezes duas dimensões (o dito lado mental, ou físico/atlético) em vez de se olhar a esta questão como um Todo -, o lado "atlético" evidenciou-se, por exemplo, a um nível mais micro, nos duelos, com maior poder romano, nas disputas em sprints, aguentar o contacto sem perder a bola, etc. . A minha questão é: vem esse poder "atlético" de treinarem mais "fisicamente" (o que é treinar mais "fisicamente" já agora?)? Onde jogam a competitividade, o "estado d'Alma", o querer ganhar, a eventual sentimentalidade que um Padrão de jogo proporciona e a sua relação de TODO? Onda jogam a confrontação regular com as dificuldades dos jogos num campeonato como o italiano e as provas europeias (há algo que proporcione mais "dar ao pedal" que um jogo a este nível?)? Creio que é mais por aí. Mais, depende não só dessa solicitação (Intensidade contextualizada) mas também da capacidade de se estar sereno e desacelerar. Nessa medida depende da(s) Inteligência(s). Viver ao mesmo tempo numa paz e numa agressividade feroz. Serenidade e Agressividade são duas faces da mesma moeda.


Vs. Portimonense

Contra o Portimonense o padrão de adversidade foi diferente mas a (diferença de) Agressividade do Jogo da Roma fez-se sentir também. Neste caso, com a Roma a ter de "pedalar" um pouco mais mas mais ainda assim, deixando bem evidente essa diferença.

O Portimonense tem na minha opinião uma boa equipa e bons jogadores e, ao contrário do Sunderland, mostrou outra capacidade para equilibrar o jogo, nomeadamente pela capacidade de repartir, em alguns momentos do jogo, o domínio com a Roma. Por esse motivo mais ainda neste jogo, me ressaltou como esta Agressividade de que falo é decisiva. Factualmente, quando é de conservar a bola ou vencer uma disputa, nos momentos em que o jogo isso proporcionou, os jogadores da Roma levaram vantagem. No plano do Padrão (abordarei mais especificamente adiante a relação Agressividade-Modelo) a Roma evidencia maior eficiência no definir desequilíbrios, procura-os de uma forma mais imprevisível, mas também mais frequente, força bastante esse lado mais incisivo, embora também seja capaz de conservar a bola, alternar a circulação por vários espaços, alternar ritmos... Em suma, usa mais e melhor a Agressividade. O Modelo parece ter isso como Intenção prévia.


(Há aqui outros factores que também jogam. Por exemplo, e a desfavor do Portimonense, o seu enquadramento no Futebol Português e consequente menor confrontação com uma adversidade forte em termos dos padrões de problemas com que se defronta, o que por sua vez leva naturalmente a menor habituação a determinados níveis de Agressividade)

Agressividade e o Modelo

Cultura Táctica e ofensividade

Não tenho dúvidas que a Dinâmica evidenciada pela Roma (arriscar-me-ia a dizer, com considerável "refinamento" e "coordenação" Colectivos) beneficia de tempo e, claro, da qualidade dos seus jogadores e do seu Treinador.

Não tenho dúvidas que teve de haver algo nesta Equipa, em termos do seu tempo de desenvolvimento, para haver um reconhecimento Colectivo dos padrões de problemas/soluções que o(s) jogo(s) traz(em).

Não tenho dúvidas também que, para refinar algo que inicialmente está ainda em bruto, tem de haver Risco (subentendo aqui nomeadamente o lado da exploração do que as possibilidades de uma Matriz de Jogo dá). Nesta perspectiva, pode-se especular que a ofensividade do jogo da Roma - no que diz respeito à frequente procura vertical e ao ataque agressivos ao espaço (embora o seu jogo me tenha parecido não se esgotar aqui) - foi (é) certamente descoberta, repetida, treinada, com avanços e recuos no manifestar da sua eficiência, onde essa verticalidade tem certamente nela incluída o desejo de ganhar de Mourinho (sentimentalidade da Ideia). Creio ser esse repetir (errando?) que, na continuidade, deverá levar ao equilíbrio, em termos de reconhecimento de quando a usar e em termos de consciencialização (incorporação) da sua relação com momentos de gestão do jogo (Cultura Táctica).

Diria que a vivenciação regular da Agressividade (momentos mais incisivos/verticais), mesmo que aparentemente torne o jogo mais vertical em determinado momento de um processo, não é incompatível com o aprimorar de uma Dinâmica que não se esgote aí e, concomitantemente, também tenha temporização, gestão da bola, períodos de organização. Como o inverso também é verdade: um padrão que num determinado momento ainda não manifeste tanta verticalidade e evidencie mais gestão/organização também seja desenvolvível em concomitância com a necessidade da verticalidade (embora em determinado momento ainda não se tenha manifestado tanto). É um permanente dosear (sem a Especificidade largar), onde o Treinador é como um diapasão.

Ambas, verticalidade e gestão, têm de ser vivenciadas, consciencializadas, relacionadas uma com a outra. É o espaço-tempo, o quando e onde que determina o como. Com o Treinador a regulá-las.


Agressividade e o Contexto Organizador


A contribuição da presença regular dessa Agressividade (verticalidade) para o desenvolvimento da Dinâmica será tanto maior se ao mesmo tempo for enquadrada e tiver uma relação regular com um Contexto Organizador (que seja rico), numa perspectiva de que o Jogo, para ser bom, deve ter tudo, mas sem deixar de se expressar num estilo (em função das proporções de umas coisas em relação a outras)

A partir do que observei nos referidos dois jogos de preparação- onde observei/constatei um (aparente) bom nível de refinamento e coordenação (Colectivos) - sistematizei alguns pontos que me saltaram à vista, documentados nos vídeos, que me levaram à reflexão e consequentes questões que levanto neste artigo (e possivelmente numa segunda parte), tendo a questão da Agressividade como centro.

Evidenciarei nomeadamente:

- o reconhecimento das aproximações perto da bola (reconhecimento prévio/antecipado da necessidade de apoiar perante pressão sobre portador da bola), ou seja, uma garantia prévia de segurança para melhor cobertura ao Risco (sua relação com um entrosamento Colectivo);

- simultaneamente, os apoios longe da bola (o não me aproximar tanto, ou saber jogar em afastamento para poder dar continuidade ao ataque recebendo com mais espaço);

- a nível mais Macro, o fazer mover o adversário para criar espaços favoráveis e variar a direcção do jogo (a variabilidade relativa ao "gerir" e sua relação com a verticalidade, o quando que determina o como);

- O reconhecer prévio, do jogadores que não têm bola, do antecipar a verticalidade, através de movimentos de rutura antecipados, seguidos do acompanhamento dos jogadores vindos de trás.

- não perder os duelos (com antecipação);

- Pressionar (intuitiva e coordenadamente) e confiar nas coberturas.


Vídeo 1: "Jogo perto da bola": o apoio antecipativo que indicia entrosamento e a existência de aldo (Colectivo) de algo incorporado)

Vídeo 2: "Manifestação do Padrão (vertical) e sua relação com outros momentos de gestão da bola

Correr todos na mesma direcção


"Será capaz de fazer da Roma um grupo unido a correr na mesma direcção"

Um grupo a correr na mesma direcção é algo difícil, mas, vindas de Arrigo Sachi, numa antevisão à Serie A, estas palavras devem no mínimo ser levadas em atenção dada a credibilidade da fonte.

Procuro ter cuidado quando falo sobre o que não domino totalmente. Não conheço Mourinho, nem o vi treinar, pelo que falo de factos, e, neste caso, do que vi. Factualmente, vi uma equipa competitiva, nunca desistindo de um lance, solidária e altamente concentrada. Vi uma Equipa, um grupo a correr na mesma direcção, "um por todos e todos por um", pelo menos neste momento da época.


A Liderança é algo extremamente complexo contudo. Geralmente é contaminadora. E é um processo cuja causa efeito não é linear, antes mutuamente repercussiva. Também há certamente resquícios do entusiasmo a que a época anterior levou. Resultados levam a confiança que se traduz em qualidade de jogo. Qualidade de jogo também gera confiança, o que leva a resultados. O sentimento comum a resultados e qualidade de jogo pode ser a confiança . Neste momento há ambição e um sentimento mobilizador.



Um sentimento que tem de ser continuamente alimentado

Um sentimento tem, contudo, de ser continuamente alimentado. E depende de vários factores, como o sejam, como referi, nomeadamente a expressão regular de resultados e qualidade de Jogo.


Paixão e Equipa

A Agressividade como ligada ao plano emotivo (e sócio-afectivo)


Paula Rego disse que não pintava, antes, desenhava, porque ao preencher os interstícios dos limites desenhando (gostava do pastel em vez do pincel porque isso lhe permitia riscar e fazer grande pressão sobre a tela/papel), respeitava a sua necessidade agressiva.

Acredito que isso era algo vindo do coração, uma necessidade sentimental, como o pode ser o desejo de ganhar de Mourinho, desejo este que se reflecte na Ideia e na Agressividade que parece evidenciar.


"Futebol é uma Arte (Art). Mas Futebol é também Coração (Heart). Futebol é acerca de ganhar"
José Mourinho

O desejo de ganhar e/ou de expressar algo esteticamente belo (jogo), enquanto algo que está entranhado e se vive com paixão/sentimento expressa-se com uma Agressividade (com estética) que tem literalmente vida.

Não conheço Mourinho, nem nunca o vi treinar, como já referi, mas certamente preserva Paixão por Futebol. Acredito que essa Paixão se transmite à Equipa e é provável que o sentimento se difunda.



Uma nota final:


É nomeadamente por ter observado esse "Estado D'Alma" no Jogo da Roma que trouxe esta reflexão.

Reforço novamente que falo em probabilidades e que coloco um tom algo especulativo nela.


Reforço a ressalva que deixei na introdução:


"Há aspectos que me deixam dúvidas quanto à consistência do objecto sobre o qual especulo: as boas probabilidades da Roma em ser o outsider da Série A (por no seu jogo observar esse "Estado D'alma")"

Neste ponto, concretamente, deixo estas questões: Será Mourinho mais Táctico-Estratégico ou Estratégico-Táctico? Que influência uma ou outra posição poderá ter no desenvolvimento do seu jogo, agora que vai para o 2º ano?

Reforço, deixo claro que há aspectos relacionados com convicções próprias que para os mais atentos deixei aqui subentendidos.


Reforço, há questões que me deixam dúvidas quanto à consistência da Roma. Para o bem e para o mal. Daí falar em probabilidades.

Um Abraço,

Carlos Miguel

https://pt.carlosmiguelcoach.pt/






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